

Este CD bem que poderia se chamar "A Música de Porto Alegre - Erudito II", pois tem uma proposta muito parecida com o Erudito I, infelizmente sem continuação: repertório camerístico de compositores portoalegrenses. Se o primeiro continha peças escritas até aproximadamente 1935, aqui temos repertório pianístico que vai de 1950 até o final do século. Se o outro havia parado na geração de Luiz Cosme, Radamés Gnattali, aqui começamos pelo finalzinho dela, com obras já do último quarto da produção do Armando (os Sonhos) e já entramos na geração seguinte, do Bruno Kiefer e do Paulo Guedes, aqui representada por Terra Selvagem. Essa peça foi dedicada à esposa de Bruno, Nídia Kiefer, fundadora do Projeto Prelúdio, que foi onde eu li meus primeiros compassos de música e onde despertou em mim a paixão pela música. Curiosamente, os prelúdios que dão nome ao CD, de autoria de Fernando Mattos, também são dedicados à Nídia (vide texto abaixo). Seguimos a jornada com compositores mais recentes todos vivos e atuantes, terminando com o Estudo Paulistano de Celso Loureiro Chaves (recomendo vivamente a leitura do artigo do Celso que está disponível nos anais do congresso da ANPOMM de 2003 que aborda o processo composicional dessa impressionante peça para piano mão esquerda). Economizo meu 'tagarelismo' e deixo os comentários às peças ao muito mais competente Celso, que escreveu o belo texto constante no belo encarte deste belo CD. Por fim, agradeço à Luciane Cardassi, primeiro por esse projeto que ora postamos, e depois pelo efusivo apoio à disponibilização do material. Tenham certeza que têm aqui interpretações brilhantes e trabalhadas muitas delas ao lado dos próprios compositores. Junto com o Erudito I, garanto ser esse disco uma mais que digna introdução ao mosaico musical dessa cidade que eu tanto amo.
Armando Albuquerque
1 - Sonho I (1950)
2 - Sonho II (1952)
3 - Sonho III (1974)
Bruno Kiefer
4 - Terra selvagem (1971)
Flávio Oliveira
5 - Round about Debussy (1989)
Lourdes Saraiva
Três Prelúdios e fuga (1994)
6 - Prelúdio 1
7 - Prelúdio 2
8 - Prelúdio 3
9 - Fuga
Fernando Mattos
Prelúdios em Porto Alegre
10 - Agressivo
11 - Veloce
12 - Delicato
13 - Presto agitato
14 - Affetuoso
15 - Brilhante
Antônio Carlos Borges Cunha
16 - Lagos (1991)
17 - Pamânder (1997)
James Correa
18 - Ékdysis (1996)
Celso Loureiro Chaves
Estudo Paulistano (1998)
Luciane Cardassi, piano
mp3 320 + encarte/booklet (Português/English)
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Fernando Mattos sobre Prelúdios em Porto Alegre
Surgiu do convite do amigo compositor James Corrêa para escrevermos uma série de peças sobre a cidade de Porto Alegre; o próprios James escreveu um Retrato Cubista para a Cidade de Porto Alegre, para violino e piano (registrado em CD da Eldorado com Cármelo de los Santos e Catarina Domenici) e eu escrevi os Prelúdios em Porto Alegre (registrado em CD pela pianista Luciane Cardassi). A idéia original era de retomar o sentido do termo ‘prelúdio’ como a primeira etapa para a realização de alguma coisa, nesse caso a música. A peça foi dedicada à professora Nídia Kiefer, criadora e coordenadora do Projeto Prelúdio, uma escola de música para crianças e jovens da Pro-Reitoria de Extensão da UFRGS, onde eu trabalhava como professor de Violão e Teoria Musical, na época. Assim, cada peça foi concebida como o prenúncio de um encontro entre dois músicos internacionalmente conhecidos na cidade de Porto Alegre. O Prelúdio nº 1 inicia como uma abertura solene de ópera à moda francesa do século XVII, como era comum na corte de Luis XIV, nas óperas tocadas pela sua orquestra ‘Os Vinte e Quatro Violinos do Rei’, comandada pelo italiano alla francesaJean-Baptiste Lully – é como se Lully tivesse encontrado em uma caminhada pelas ruas de Porto Alegre um compositor de ópera contemporâneo, como Philip Glass, e ambos começassem a discutir os valores mais importantes da música dramática segundo os moldes aristotélicos; o Prelúdio nº 2 seria o indício do encontro entre Johann Sebastian Bach e Chick Correa, em que um improvisaria algo virtuosístico para o outro, na tentativa de fazê-lo reagir à sua própria música – tem-se, desta forma, o contraponto imitativo tão caro ao mestre barroco e os ritmos irregulares característicos do músico de jazz; oPrelúdio nº 3 se caracteriza por uma dúvida: como seria um concerto de Keith Jarret tocando os prelúdios de Shostakovich no Theatro São Pedro? É escutar para saber; o Prelúdio nº 4 é um retrato sonoro do encontro entre Ludwig van Beethoven e Béla Bartók em meio a uma tempestade subtropical à beira do lago Guaíba, em que os ritmos assimétricos e a utilização do piano como instrumento percussivo, próprios da técnica compositiva de Bartók, se espelham nos trinados transfigurados em elemento tímbrico, como é comum em várias peças do mestre alemão para piano – um toque latino-americano se encontra na divisão ‘3+3+2’ da métrica 8/8, a partir do compasso nº 26, é interessante notar como esse ritmo também é comum na música folclórica do leste europeu (a terra de Bartók onde Haydn, o mestre de Beethoven, viveu e seu discípulo jamais pisou); o Prelúdio nº 5 é uma referência ao quarto prelúdio de Frédéric Chopin, porém com a quebra da quadratura do número 4 (lembre-se que o quadrado é considerado como a figura geométrica perfeita fechada em si mesma desde Pitágoras) pela irregularidade e assimetria necessárias do número 5: o prelúdio chopiniano concebido em Porto Alegre é o de número cinco (em vez de ‘quatro’, como o prelúdio de Chopin) e se desdobra em compasso de cinco tempos (em vez de quatro, como no prelúdio de Chopin), mesmo a introdução em compasso de seis tempos se manifesta com apenas cinco ataques, sendo que o sexto tempo é somente uma projeção sonora da díade atacada no quinto tempo e, naturalmente, a nota melódica principal (fá) se encontra na quinta superior da nota melódica principal (si) do prelúdio de Chopin – não a quinta justa (que seria perfeita, quadrada e fechada em si mesma), mas a quinta diminuta (mais adequada, neste caso); oPrelúdio nº 6 é, na verdade, um estudo em oitavas à moda de Franz Liszt ou de Frédéric Chopin, como se os dois mestres do piano do século XIX se encontrassem em uma tarde ensolarada de inverno em Porto Alegre e cada qual pretendesse demonstrar seu pianismo para o outro através de um estudo de virtuosidade.








