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terça-feira, 3 de abril de 2012

Camargo Guarnieri - Sonatas para Violino 2, 3 e 7; Canção Sertaneja


Violin Sonata No. 2
1 - Sem pressa em bem ritmado
2 - Profundamente terno
3 - Impetuoso

Violin Sonata No. 3
4 - Moderato expressivo
5 - Terno
6 - Decidido

Violin Sonata No. 7
7 - Enérgico
8 - Magoado
9 - Com alegria

10 - Canção Sertaneja: Dolentemente

Lavard Skou Larsen, violino
Alexander Müllenbach, piano


Falar de Guarnieri, ainda mais aqui, e ainda mais eu, é chover no molhado. Me limito à reprodução do texto do encarte, que, sinceramente, está recheado de comentários por vezes bastante óbvios ou esquisitos, só vale a pena por uma ou outra ideia ou informação... Aos interessados pelo aspecto técnico violinístico nestas sonatas, há esse ótimo artigo de André Cavazotti, que analisa as técnicas utilizadas e compara as 6 sonatas de Guarnieri (que começam a contar da 2ª) e revela que apesar de quase todo o vocabulário violinístico utilizado nas sonatas de Camargo Guarnieri pertencer ao idioma virtuosístico do século XIX, a proeminência do intervalo de quarta e o uso de uníssonos, segundas, quartas e quintas em cordas duplas em passagens acentuadamente rítmicas assemelha-se ao idioma violinístico de dois compositores nacionalistas, Bartók e Kodály. Atenção também à fantástica Canção Sertaneja, muito singela e inspirada. Uma ótima audição!


Em "Sonata par Violino nº 2", 1993 o piano abre o primeiro movimento, marcando "Sem Pressa e Bem Ritmado" com temas replicados pelo violino. É uma música com alto grau de tensao, atenuada pela melancolia quando o violino trata o tema principal com extremo sentimento, até o término da música. A abertura do segundo movimento, marcada por "Profundamente terno", é gentil e pungente até que o piano introduz uma passagem mais forte, à qual o violino replica, agora de maneira a evidenciar o estilo brasileiro - uma influência de "Saudades", tributo de Milhaud ao Brasil, prasenteiro mais também saudoso. O terceiro e último movimento corajosamente quebra o clima. "Impetuso" utiliza integralmente o tema de abertura da sonata e as passagens correspondentes, num movimento que desliza entre a tristeza, a energia e o drama, evolando-se em melodia suave, para depois retornar à impetuosidade do início, com um violino que repetidamente lembra a voz humana, até que outros violinos levam à conclusão da peça.
A "Sonata nº3" também é aberta pelo piano, em cadência marcial que logo é compartilhada pelo violino, definindo o estilo italiano de "Moderato Expressivo": o fluxo da música é bruscamente interrompido pelo piano, seguido por passagens de violino solo novamente imerso em melancolia, enquanto se desenrola um duelo entre os dois instrumentos. Como na Sonata nº 2, o violino assume um papel retórico, quase que vocal e uma passagem frenética conclui o movimento. No segundo movimento, "Terno", traz uma abertura delicada, cuja sensibilidade vai se exacerbando até chegar a um clímax agitado, seguido por uma maior tranquilidade à medida em que o movimento chega ao final. O formato do terceiro movimento permite que em seu início haja um contraponto finamente delineado entre os dois instrumentos, o que a princípio se traduz em harmonia predominantemente linear, com clara influência de ritmos e contornos melódicos brasileiros, que culminam num instigante final.
Diz-se que Guarnieri perdeu sua primeira sonata para violino num taxi e que nunca a reescreveu; assim, sua sexta sonata é chamada "Sonata para Violino nº 7". Composta entre 1977 e 1978 e nunca publicada, inicia-se com violino e piano juntos, no primeiro movimento. Novamente observa-se a abordagem distintamente retórica na partitura, em especial para o violino, com os dois instrumentos frequentemente em execuções antífonas, por vezes travando diálogos ríspidos. O segundo movimento, "Magoado", mescla tristeza e amargura: o piano introduz as primeiras notas, compartilhadas pela pungente melodia do violino, resultando numa música em que a livre harmonia, aliada a um sentimento intenso, é aprimorada até o portamento final do violino. "Alegria" tem mais a ver com a velocidade que com alegria propriamente dita. A música varia da percussão áspera até o intenso, com contrapontos de Hindemith e, pelo menos em sua abertura, conta com a influência do onipresente violino, pontuado por intervenções sincopadas do piano. O charme de "Canção Sertaneja" reside na eventual austeridade e na exagerada melancolia que permeiam as 3 sonatas; Guarnieri trata a música sertaneja com muito carinho e indulgência.


10 comentários:

Nicols disse...

Muito obrigado caro amigo!Guarnieri pe um excepcional compositor.Percebo claramente a versatilidade composicional e as diversas misturas diferentes de cores.

G. Tadeu disse...

Certamente, Nicolas! Por sinal, o repertório brasileiro para violino e piano esconde verdadeiras joias - como as sonatas do Guerra-Peixe e do Claudio Santoro, que pretendo postar em breve - e merece mais atenção.

пока disse...

Sim, G. Tadeu, fiquei pensando agora no Guerra e no Santoro e ambos em peças interessantes. A primeira sonata para violino e piano do Santoro é uma das minhas obras prediletas deles. Linda, delicada, intimista. Do Guerra, gosto mais da segunda sonata. No mais do repertório, além das sonatas do Guarnieri (sobretudo da terceira à sexta), essenciais do repertório, gosto também da Sonâncias II do Edino Krieger. Mas minha predileção máxima recai na terceira sonata do Villa, a menos conhecida e dificilmente bem tocada (mas, quando bem tocada, é um desbunde).

Engraçado é que não me vem muita coisa à cabeça quando penso em obras mais contemporâneas. As sonatas do Almeida Prado são até interessantes, mas não é do que de melhor ele fez. Lembro também das sonatas do Harry Crowl, mas não estão igualmente entre minhas preferidas. Será que há pouca coisa recente gravada ou composta para violino e piano?

G. Tadeu disse...

пока, há duas coisas que me chamaram sobremaneira a atenção em relação ao repertório para violino e piano de compositores vivos. Foram duas peças que tive a oportunidade de assistir ano passado com James Alexander e Luciana Soares. Duas sonatas: uma do interessantíssimo Liduino Pitombeira (que já havia me encantado com seus trabalhos no para os dois CD's Grupo Syntagma) e outra de José Siqueira. Na ocasião, inclusive o duo disse que estava começando a gravar a integral das sonatas do Liduino... estou esperando ansiosamente essa gravação.

Todavia, nesse concerto, gravei precariamente com o meu gravador as duas peças. Se manifestarem tiverem interesse, será um prazer postá-las. Vale pelo registro, porque a qualidade deixa a desejar. Os intérpretes são excelentes, e a afinação cristalina do James é comovente!

José Luís disse...

Muuito obrigado e parabéns pelo magnífico trabalho nesse blog! Eu conhecia pouca coisa da obra do Camargo Guarnieri. Já estou ouvindo esse e os outros discos dele que você colocou e pude realmente confirmar o que eu já suspeitava antes, foi um grande compositor. Eu não teria condições de ter acesso a tantas obras dele. Muito obrigado de novo. José Luís.

G. Tadeu disse...

De nada José, muito me alegra poder contribuir pras tuas descobertas!
Um abraço!

Rafael disse...

A propósito: a Canção Sertaneja é um arranjo do próprio compositor? Quem poderia me elucidar e qual fonte de pesquisa?

Obrigado desde já.

Rafael disse...

Digo sobre o arranjo para violino e piano, evidentemente...

пока disse...

Tadeu, eu ia adorar escutar essas gravações, ainda que a qualidade seja precária. Sempre me interessa ouvir coisas novas. Tenho uma imagem boa do Liduíno sobretudo por uma sonata para cello que aparece num cd chamado Seresta.

E do José Siqueira creio que nunca ouvi obra para violino e piano. Embora o que eu conheça do Siqueira não seja ruim, sempre acho um pouco acadêmico demais, sem aquele sabor fresco que a gente procura numa música nova. Mas é sempre bom avaliar se não ouvi as peças erradas do compositor, não?

Abraços!

G. Tadeu disse...

пока, vou te dizer que também tenho um pouco essa impressão das peças do José Siqueira de modo geral, mas acho às vezes ele mais desenvolto na música de câmara. Vou procurar os arquivos do recital para postar aqui em breve. Igual, aqui no myspace do Duo Alexander-Soares (http://www.myspace.com/alexandersoaresduo/music/songs?filter=popular)tem inteira a sonata III do Liduino de trechos de outras, além de uma peça do Kaplan!

Quanto a esse CD "Seresta", que foi lançado na Suíça, terias como passá-lo, fiquei bem interessado!

Abraço!

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